Diários em Bordo: trajetórias alfabetizadoras

Fotografia na Escola

Diário elaborado a bordo da sala de aula do curso sobre imagens utilizadas nas escolas alfabetizadoras: “Pintura e Escrita: confluências da verbalidade e do olhar nas classes de alfabetização”

Valéria Rosa Poubell, setembro de 2009

 Curiosidade.  Foi o sentimento despertado no momento que tomei ciência do Curso sobre Fotografias na escola.  Encontrava-me num dos Fóruns de Alfabetização, na Unirio, e fui correndo (literalmente) fazer a minha pré-inscrição.
Ansiedade, expectativa e um desejo muito grande permearam o meu ser enquanto aguardava o contato do coordenador, Prof. Armando M. Barros. Contato realizado. Tratei de negociar na escola as minhas ausências. O processo de negociação nunca é fácil, uma vez que as escolas públicas não contam com profissional de apoio, ou aquele educador que substitui o professor nos casos de necessidade.
Contando com aquilo que chamam de "boa reputação", e após explicitar a proposta do curso, consegui justificar minha saída da escola para frequentar as aulas. Mas sei que algumas vezes meus alunos, em fase de alfabetização, ficarão sem aula. Penso que eles devam ganhar lá na frente, qualitativamente, pois acredito no meu aproveitamento em relação aos temas e elementos discutidos durante todo o curso.
Considero-me em fase de alfabetização, e também de letramento, aqui entendido como aquilo que faço em relação àquilo que aprendo quando o assunto é alfabetização, principalmente quando tratamos de alunos oriundos de classes sócio-economicamente desfavorecidas. Isto se dá porque, enquanto educadora, percebo o meu “inacabamento”, pelas palavras de Freire (FREIRE, 1996).  Um pouco da minha trajetória profissional nos ajudará a compreender a relação Educação X Educador instituída ao longo da minha própria história de vida.
Quatro anos após o término do Curso Normal, escolhido aos oito anos de idade quando me embrenhei, naquele tempo no “artífice real de faz-de-conta” (se considerada a fase da vida em que me encontrava) de alfabetizar pessoas idosas da minha comunidade, prestei concurso para o Governo do Estado do Rio de Janeiro, em 1993, iniciando então a minha carreira no magistério. Tive a oportunidade de trabalhar em comunidades bastante carentes, como a baixada fluminense, Rio das Pedras, Rocinha e Cidade de Deus. O que me proporcionou um aprendizado substancial para o desenvolvimento da minha prática pedagógica ao longo dos anos. Estive “cara-a-cara” com o problema da exclusão social, tão evidenciado em nosso país, problema este que despertou em mim um descontentamento profundo e um desejo enorme de busca por alternativas capazes de solucionar o problema. Tornei-me o que Paulo Freire chamaria de “sonhadora”. Comecei a sonhar com uma educação transformadora. Revesti-me de esperança, de desejo ardente, de busca...
Fui então, em busca de subsídios capazes de amenizar as minhas aflições e de tornar a minha prática pedagógica mais eficiente. Comecei a sonhar com a Universidade Pública. Um sonho sim, pois sempre fui aluna de escola pública e para estes o ensino superior e gratuito era algo difícil de ser alcançado. Acreditei neste sonho e o tornei realidade. Em 1995, Matriculei-me no curso de Licenciatura Plena em Pedagogia, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, concluindo-o em 1998. No mesmo ano, participei do concurso de seleção de professores para o magistério das séries iniciais do Ensino Fundamental da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro.
Hoje, atuando nas Secretarias Municipais de Educação do Rio de Janeiro e de Nova Iguaçu, ainda reside em mim forte desejo de transformação da realidade social a minha volta, mas agora este desejo se manifesta através de ações efetivas, num passo-a-passo. Muitas vezes, angustia-me saber que pouco ou quase nada tem colaborado de fato para mudança comportamental de alguns dos meus alunos, mas ainda assim, tento “não abandonar o barco”. Percebo o quanto minha atuação faz diferença na vida das crianças que alfabetizo.
A importância de uma formação alfabetizadora competente, aquela que garantirá a inserção do indivíduo na sociedade letrada, é o que movimenta minhas buscas por alternativas mais eficazes em sala de aula. São muitas as inquietações, como exemplo: como transformar em efetivo conhecimento os diversos saberes que meus alunos e alunas trazem consigo?
Adoro tirar fotos! Não gosto de aparecer nelas, mas me fascino pela possibilidade do registro qualitativo e de memória que elas nos proporcionam. Sempre procurei utilizar imagens no trabalho com os meus alunos, mas confesso a pouca habilidade em fazê-lo. Quando lanço olhar sobre o que estou fazendo, prática constante que cultivo, percebo que as atividades relacionadas aos registros em fotografias se repetem. Já as tenho de cor, como receitas. Mas a partir das reflexões provocadas durante as participações no referido curso, começo a não deixar de pensar que a orientação do “olhar” do alfabetizando é fundamental para o processo, assim como o “ouvir”. E tenho falado sobre isso com os meus alunos.
Pensando na possibilidade de aprender novas formas de olhar as imagens, acredito que a proposta do Curso de Extensão “Pintura e Escrita: confluências da verbalidade e do olhar nas classes de alfabetização” favoreceu e, ao longo da tecitura da minha trajetória alfabetizadora continuará  por fortalecer toda a minha prática pedagógica.
A expectativa foi muito maior que a possibilidade de assistir a primeira aula. Me apresentei, quase sem voz, como me é peculiar em momentos como esse. Era a minha imagem que estava ali exposta a olhares indagadores. Ou será a imagem que fiz de mim mesma? Sentimentos se fundiam assim como se fundem nas cabecinhas dos meus alunos...
Fui então acolhida e percebi um clima de afetividade e compartilhamento. Mas fiquei muito bem ao final. Tomei ciência do que fora tratado e discutido ali entre aqueles sujeitos ávidos pelo conhecimento. E até me ofereci para criar um espaço de discussão através da internet, entre os integrantes do grupo de participantes do curso o que, aliás, adorei.
Até mais.
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