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Alfabetização e Educação Popular: opção para a atualidade?

Aspectos ideológicos e metodológicos
“Com muitas ilusões, mas com enorme esperança, tentaram-se caminhos novos ou reconstruíram-se caminhos antigos. O que houve de certo e errado só a história pode dizer. E quase nos foi negada a possibilidade de conhecer a história”. Osmar Fávero
Paulo Freire, como representante notável frente às lutas populares que se travaram inicialmente na América Latina, teve uma ação internacional, “graças” a sua situação de exilado. Suas ações carregaram em si a concepção de educação como emancipadora do popular e contribuíram para a consolidação de um grande número de grupos e organizações favoráveis a defesa dos marginalizados e excluídos.

Segundo estudo de (ALMEIDA, 1988) o ato de educar em EP significava, no início dos anos 60, atuar frente a grupos variados em seus interesses: o indivíduo que buscava aulas de alfabetização nos acampamentos, as mulheres que participavam de clubes de mães, sócios nas sociedades de bairros, membros das igrejas, grupos de trabalho específico, dentre outros. Mas como podemos compreender a base de todo o processo de alfabetização em Educação Popular da época?

As ações em EP da época, pautavam-se em reuniões, encontros para troca de experiências que obedeciam “ao principal pressuposto ideológico da Educação Popular: a relação igualitária entre os sujeitos (op. cit, p.21)”. E ainda, a discussão de temas eleitos a partir da análise do trabalho desenvolvido pelos grupos participantes, e que podiam ser apresentados em painéis ou simpósios. Havia também os relatos que se constituíam da apresentação de todas as conquistas de cada grupo e as conferências, onde um especialista, desde que tivesse aceitação pelos grupos, falava a eles sobre os temas eleitos.

Essencialmente, a proposta era recriar a escola em cada cultura, entendendo o espaço escolar não somente como um espaço físico, mas com determinadas práticas, aplicadas a um determinado grupo. A escola, nesta perspectiva passa a ser o lugar de contestação política, ideológica e social, em virtude da aplicação de uma “pedagogia da pergunta”, onde os indivíduos são levados a construir seu conhecimento e incentivados a lutar pela transformação de seu meio e condição social. Considerando–se livre de modelos tradicionais, ela se flexibiliza, ganha capilaridade, se multiplica e deixa efetivamente de ser um privilegiado para alguns.

Os movimentos de educação popular, em geral, e a campanha “De Pé no Chão”, em especial, adotaram principalmente duas ferramentas de trabalho: o Método Paulo Freire – termo comumente utilizado, porém não defendido pelo educador - e sua função conscientizadora, e a cartilha de alfabetização e sua função “politizadora”, ambos remetendo à educação de adultos.

No Método Paulo Freire, o slide — recurso audiovisual possível na época e no contexto social — era utilizado como forma de suscitar uma discussão. A partir da imagem e da palavra do professor se iniciava a pedagogia da pergunta. Antes de qualquer fonema alfabetizador eram feitas duas leituras do mundo: o mundo da natureza e o mundo da cultura.

Esse é o tempo de discussão de dez slides: quando o alfabetizando se descobre um criador da cultura e se revela um sujeito da História. A partir daí, através do exercício dialógico, lhe era apresentada uma palavra pesquisada em seu universo vocabular, e identificados fonemas. Estes eram recriados em outras palavras, e a discussão político-pedagógica se desenrolava. Em 40 horas, presumia-se, o aluno saía alfabetizado e “armado de um pensamento crítico”, observa Góes (2002).

Em palestra proferida pelo professor Osmar Fávero, para um grupo de pós-graduandos em EJA, na Universidade Estácio de Sá, em outubro de 2007, tivemos contato com o trabalho realizado pelos educadores populares nos grupos de alfabetização. O processo consistia em reapresentação dos temas discutidos nas reuniões, sempre com utilização de painéis mostrados por slide (equipamento “monstruoso” em seu tamanho, se comparado aos disponíveis hoje) onde se elegia uma “palavra geradora” – “Palavras geradoras são aquelas que, decompostas em seus elementos silábicos, propiciam, pela combinação desses elementos, a criação de novas palavras” (FREIRE, 2006, p.120).

Assim, podemos compreender a base do processo de alfabetização em EP, da seguinte forma :
Caracterizada por uma “seqüência de ações” (ALMEIDA, 1988, p.24) a metodologia utilizada em EP nos seus primórdios, pode ser entendida como empirista. Sua preocupação fundamental refere-se ao “como fazer”, e de forma breve, considerando as condições históricas, nas quais foi submetida.

Então, a partir da realidade, são geradas teorias e ações que ajudarão a pensar essa mesma realidade transformá-la. Mas pensemos nessa realidade como aquela em que vivemos e vivem os nossos alunos hoje, se pretendemos encontrar espaço para ela nos dias atuais.

Neste momento do trabalho nos reportamos para o período histórico daquela época e nos deparamos com a difusão do “método ativo”, denominado por PIAGET (1970). O método acolhe a concepção de aprendizagem como produto da interação do sujeito com o objeto do conhecimento e nas inter-relações com o meio social. Sem dúvida alguma, tal corrente acabaram por influenciar os precursores da EP.

Vale ressaltar o que se pretendia na época: diminuir a quantidade de analfabetos no país, oferecendo-lhes “as primeiras letras”.

O golpe militar acabou por interceptar a prática de EP no Brasil e contribuir para a indefinição no que concerne à metodologia e à técnica . Muitos documentos (sobre os encontros, as palestras e os materiais utilizados) tiveram que “desaparecer” da história. No entanto, não desaparecem do imaginário daqueles que a praticavam.

Mas o que mudou de sessenta até aqui? Como “fazer” Educação Popular hoje? Que tendências pedagógicas nos dão suporte? Como institucionalizar, através da escola, ações de EP numa perspectiva de ensinar a ler e escrever crianças, jovens e adultos, sem perder de vista os pressupostos ideológicos que sustentam a sua coluna? Estas perguntas co-norteadoras deste trabalho nos convidam a uma reflexão sobre as implicações da trilogia indissociável: relação pedagógica x metodologia x processo de aprendizagem.

Acreditamos que para superar o caráter empírico do método e ações da EP dos anos 60, faz-se necessária a discussão das dimensões cultural e ideológica contida na técnica utilizada. Discussão para o próximo post!
Trabalho de conclusão de curso apresentado à Pós-graduação Lato Sensu:

Alfabetização e Educação de Jovens e Adultos - concepções e perspectivas, Unesa/ RJ, 2006


Forte Abraço e aguardamos suas críticas sobre esse assunto!


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