Má qualidade da educação: de quem é a culpa?

Prezado companheiro de troca-troca,

Desde que este espaço foi criado, venho tentando manter distanciamento de assuntos que não dizem respeito diretamente à alfabetização.  No entanto, a situação emergente em que a Educação no país se encontra e em especial a oferecida pela Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro e os diversos pontos de vista apresentados principalmente pela mídia (formadora em potencial de opiniões) me conduzem ao desejo de soltar a voz em prol de toda experiência vivenciada no magistério.. Quero acrescentar que considero todos muito válidos e aceitos na medida do conhecimento da causa em questão por parte do seu emissor.

Como a alfabetização está contida nesta esfera mais ampla, peço licença para apresentar minhas reflexões acerca de um pensamento hegemônico que vem se consolidando cada vez mais no imaginário da população do país: a de que a má qualidade da educação se deva exclusivamente ao professor.

Que os "maus professores" existem, de certo e concordamos, mas torná-los representantes de uma grande maioria que vive a esperança refletida nas ações de uma Educação Pública verdadeiramente de qualidade é um tantão equivocado.
A Secretaria de Educação Municipal do Rio de Janeiro, através dos seus representantes, vem se constituindo como um forte aliado à frente daqueles que atribuem a má qualidade da educação à figura do professor, eximindo-se assim da sua grande parcela de responsabilidade.

Tratar a questão da má qualidade da educação na rede pública brasileira como responsabilidade única e exclusiva dos professores é, no mínimo, uma decisão política errônea, para não dizer "maquiavélica", e  muito distanciada da prática pedagógica no âmbito dessas escolas. Reconhecer o professor do ensino público, como incapaz de se sobrepor a todo descaso político e influências negativas em sua área, deixando de lado aqueles que operam "milagres", se considerarmos a superlotação nas salas de aula, as inúmeras e enormes dificuldades sóciofamiliares, a falta de acesso aos meios culturais acumulados ao longo da história do país, representa uma estratégia de expurgação da sua qualidade e importância social, e portanto, paradoxal face ao que argumenta.

E o pior de tudo é quando uma parcela dos professores acaba por acreditar na sua incapacidade de ensinar.  E aí, quem se responsabiliza pelo fracasso do professor? Que investimentos se destinam a sua sólida formação, uma vez que a constante atualização se faz necessária? Quando são apresentados, abarcam a todos os profissionais? Se não, quais critérios regem a escolha daqueles que deverão (ou poderão) participar?

Ensinar alunos como os da maioria das escolas particulares, onde existem no máximo 15 ou 20 alunos por sala; profissionais de apoio para cada sala e pais que "dão duro" para ensinar aos seus filhos todos os conteúdos não aprendidos; sem contar que a grande maioria acaba por ser aluno em escolas extraoficiais, ou seja, aquelas representadas pela pessoa do explicador, ou até do próprio professor do ensino oficializado através de aulas de reforço (excelente fonte de grana extra) é tarefa demasiadamente simples para o professor da escola pública. Quantos alunos são atendidos em média na escola pública? Quem ajuda o aluno na tarefa de casa? Quando o aluno não vai bem, quem o auxilia? Quem ajuda o professor nas tarefas mais simples como levar um aluno ao banheiro quando necessário? Quantas horas o professor tem para o planejamento e o replanejamento das suas atividades? Situações altamente relevantes quando queremos nos referir a QUALIDADE em educação.

Sua opinião será muito bem vinda!

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