Processos Alternativos de Alfabetização: só para adultos?



“Leituras e escrituras numa Educação Popular”
Por Valéria Rosa Poubell:
In trabalho monográfico de final de curso de
Pós-graduação em Alfabetização – Puc/ 2002.

A visão que tenho de processo de alfabetização é aquele que é capaz de proporcionar ao educando meios de interagir de forma independente, autônoma e crítica frente ao mundo letrado. Devemos crer que para tanto, este processo deve contemplar o “ir além” das letras, fonemas, palavras e frases soltas e descontextualizadas. Mas o que oferecer aos alunos da EJA?
Na busca do conteúdo vivo – leitura e escrita – o aprendente se depara com a rica diversidade: diferentes tipos de letras, de variados tamanhos e formas e cores. Todos – educando e educador – interagem com as diversas formas de expressão da língua – textos escritos e não-escritos. E fazem as escolhas mais adequadas, tomando de empréstimo do meio o material que precisam e no qual trabalham (com ferramentas precisas e eficazes), para devolver melhor ainda – aquilo que toda a sociedade necessita.

O interesse e o desejo de aprender, tão necessários serem resgatados (GARCIA, 2003); a confrontação dos saberes, da vida prática e os já consolidados no meio escolar, serão otimizados, oportunizando a todos ver o que antes não conseguiam.
O aluno da EJA, aprendente da leitura e da escrita, em sua maioria migrante em cidades “grandes”, traz consigo e carrega para a sala de aula o seu modo de falar, típico das suas origens. E aí se depara com a incompreensão por parte dos professores do seu falar. E não compreende o falar do professor. A comunicação não se estabelece. O processo de aprendizagem da leitura e da escrita se rompe. E rompendo-se acarreta consequências desagradáveis e inesperadas tanto por parte do sujeito da aprendizagem, que na maioria das vezes responde com a desistência, tanto por parte do professor, que se sente impotente.
Por estarem inseridos numa sociedade letrada, os jovens e adultos, ainda não alfabetizados veem-se cercados de situações onde a escrita e a linguagem oral aparece. Nesta interação os sujeitos vão tecendo hipóteses sobre a utilidade de um e outro texto, e seus funcionamentos, bem como as formas de comunicação.
A nossa dificuldade, enquanto mediadores do processo de aprendizagem é grande em perceber nesse emaranhado de relações, oportunidades em potencial de exploração da relação aluno x objeto x conhecimento.
A linguagem do aluno constantemente é desconsiderada por nós, educadores, que tentamos, inadvertidamente impor-lhe a nossa linguagem - geralmente aquela que foi moldada nos meios escolares - ,  pois a consideramos superior, culta, padrão:
As pessoas sem instrução falam tudo errado” (BAGNO, 2004).
Com ilustrações como essa, Bagno (2004) nos alerta para o preconceito lingüístico que se baseia na crença de que “só existe uma língua portuguesa digna deste nome” e que esta seria a ensinada nas escolas.
Faz parte do senso comum que somente a língua ensinada nas escolas é a correta.
Segundo o autor citado, qualquer manifestação lingüística que fuja do trinômio escola-gramática-dicionário é a incorreta, feia, estropiada, rudimentar, deficiente - “não é português!”
Interessante quando o autor nos mostra o quadro de transformação lingüística: a etimologia de algumas palavras. Neste quadro, vemos que palavras que antes eram grafadas com  “L” nos encontros consonantais e hoje são com ”R”. Comumente, somos levados a considerar ignorantes e “atrasados mentalmente” os indivíduos que falam “FRAMENGO” invés de “FLAMENGO”.
Lançando esta reflexão para o processo de alfabetização dos alunos da EJA, vamos nos deparar com inúmeras questões inerentes ao sistema fonético dos alunos. E, não raro, somos levados pela força do sistema fonético dito padrão, a dizer para o aluno que o jeito que ele fala é errado, é grotesco, atrasado. Se o aluno não consegue se desvencilhar das suas origens fonéticas será marginalizado, excluído. Mas aqui cabe uma pergunta: isto também não ocorre nas escolas para crianças?
Não queremos que o leitor acredite que o aluno da EJA não deva se apropriar da linguagem dita padrão, mas ele precisa ter reconhecida a sua cultura, e se conscientizar de que ela não é inferior a nenhuma outra, mas que a  padronização faz-se importante no contexto em que vivemos.

Pensamos que uma das maiores maldades - ainda que se apresentem no nível da inconsciência - na EJA seja exatamente a desconsideração com a pessoa aprendente. Por que temos tanta dificuldade em lidar com os jovens? Será que sabemos respeitar o seu modo de ser, inerente, peculiar à fase da vida em que se encontra? E os mais velhos? Conseguimos alcançar, respeitar e valorizar as suas experiências, ou nos portamos de maneira intolerante: “— Ih, já vem ele novamente com esta história!”

Acredito ainda, que a prática de uma Educação Popular hoje, amparada e coerente com as contribuições advindas de tendências filosófico-pedagógicas atuais; analíticas crítico-reflexivas, pode nos ajudar, enquanto agentes educadores no sentido amplo a obter êxito  no propósito aqui defendido.
E se conseguirmos – sempre junto com os educandos – buscar no próprio meio social – na comunidade local real, concreta – as diferentes formas de uso da escrita e refletirmos sobre elas sob o enfoque da construção de conceitos, será um passo gigantesco na luta em prol do que queremos.

É fundamental que pensemos sobre estas questões. Elas perpassam não só pela EJA, mas por toda educação da classes populares, até mesmo em nossos lares e em outras inter-relações sociais que estabelecemos.
Traçar caminhos, junto com os alunos, que os levem a compreender o sistema de escrita e da linguagem oral, bem como os seus usos no meio social é tarefa primordial no processo de aquisição da leitura e da escrita.
Boas Inspirações a todos e todas!


Comentários

  1. Nossa, não sabia que você tinha um blog. Ele é ótimo!!!
    Já coloquei no meu.
    bjs

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  2. Fico muito feliz por você ter aprovado, amiga. Te admiro muito. Beijo grande e sucesso sempre.

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