Leitores não escritores X Escritores não leitores: como reparar o percurso?

Prazer de recontar histórias
Crianças realizando inferência na leitura em fase inicial da alfabetização
(Escola Pública Municipal do RJ)
Paulo Freire nos diria que aprender a ler e escrever é, antes de tudo, "aprender a ler o mundo, compreendendo suas diversas nuances". Qual a pessoa que mesmo não sendo "alfabetizada", não consegue "ler" palavras que, em se tratando de sociedades letradas, a cercam no mundo em que vive, como, Coca-cola, Banco Itaú, Casas Bahia, Nescau, Barbie, entre outras?

As letras, ou o seu conjunto em uma palavra, representam o universo codificado, fácil de decifrar para quem tem olhos ávidos e ansiosos. (continua)

Claro que, ler e escrever são atividades inexoravelmente indissociáveis, comprovam isto as pesquisas de FERREIRO e TOBEROSKY (1979) quando apontam que a criança já pensa sobre a escrita antes mesmo da alfabetização, ou seja, a representação escrita se dá por uma psicogênese, um processo de assimilação e acomodação de novas aprendizagens, levantamento de hipóteses e resolução de problemas. Tudo isso muito antes da sua entrada na escola.

A importância da prática da leitura e da escrita logo cedo são incorporadas pelas crianças inseridas no meio social em que estas se constituem como ferramentas essenciais de exercício pleno da cidadania.

Para que lemos e escrevemos? Não é necessário perguntar isso a uma pessoa não alfabetizada para que ela nos dê boas respostas, pois ela já pensa sobre isso naturalmente. As redes sociais estão entre nós com força total. Interagir através delas tornou-se tão comum quanto abrir a geladeira e pegar água gelada.

Sim, sabemos que só a entrada nessas redes não garante a sua compreensão, interpretação e produção social. Mas o não alfabetizado logo percebe a importância e o sentido dessas práticas, buscando naturalmente essa aquisição, pensado sobre a escrita, e levantado hipóteses tal qual a humanidade desenvolveu o sistema alfabético, ainda em FERREIRO e TOBEROSKY (1979).

A escrita consciente inclui uma boa bagagem acerca do universo codificado (letras e símbolos), no entanto, pessoas não alfabetizadas podem ser exímios escritores, mas não terem a consciência daquilo que escrevem. Por outro lado, leitores eficientes podem não ser escritores por não terem assimilado a relação existente entre a leitura e a escrita. São decodificadores, mas ainda não sabem codificar (utilizar os símbolos da escrita - letras e sinais).

O mesmo Freire nos diria também que "só se aprende a ler, lendo e escrever, escrevendo". Logo, boas práticas que conjuguem o ler e o escrever como atividades indissociáveis, certamente conduzirão tanto os sujeitos leitores e não escritores, como os escritores e não leitores a encontrarem o caminho do meio, aquele que assegurará as suas liberdades estar e atuar no mundo em que vivem.

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