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As falas da família e as memórias sobre o processo de alfabetização



Todos nós, leitores privilegiados, temos em nossa lembrança nossos processos de alfabetização. Mas o que nossos familiares pensavam e nos diziam àquela época, sem que percebéssemos, foi muito importante para nossa formação, seja em qualquer área em que atuamos hoje.
Será que você se recorda das falas da sua família sobre a sua aprendizagem da leitura e escrita?
Bem, de qualquer forma, quero compartilhar com vocês as minhas lembranças tão vivas em meu pensamento ainda hoje.
Seria uma honra compartilhar também das suas próprias lembranças.
Fique a vontade para nos contar.

(Proposta de atividade do Curso de Extensão/ 2009

da Universidade Federal Fluminense, Ministrado pelo Prof. Dr. Armando M. Barros
"Pintura e Escrita: confluências da verbalidade e do olhar nas classes de alfabetização").

Para o nosso mediador, o Prof Armando M. Barros (UFF/RJ), a escuta pelo próprio indivíduo sobre as suas experiências através da "voz familiar" é o que define aquilo que o aluno fala em sala de aula e até fora dela.


E o objetivo que nos faz optar por compartilhar com vocês tal concepção está presente na constatação da dificuldade que temos, enquanto professores, de nos comunicarmos verdadeiramente com nossos alunos. E mais ainda em perceber que essas vozes externas se interiorizam ao longo da nossa história e nos acompanham pela trajetória de vida escolar. Como entender o que os nossos alunos nos dizem? Ou tentam nos dizer? (...)


A experiência que vivenciei através da minha "voz familiar" adveio da avó Eva, quem me criou, e hoje residindo pertinho de Papai do Céu. Ela me contou que me alfabetizei aos quatro anos e praticamente sozinha. Infelizmente, não sei dizer como isso aconteceu, mas lembro-me como vivia pelos cantos escrevendo e desenhando, horas e horas. Ficava escondida embaixo da mesa, pois minha irmã, a Valquíria, sempre me "perturbava" para chamar para brincar com ela. Até hoje, em conversas com ela, sou cobrada disso! Rs...

"- Ficava com uma raiva. Valéria nunca queria brincar comigo! Eu tinha que ir para a rua brincar com as outras meninas e nossa vó, que tomava conta da gente enquanto minha mãe trabalhava, não deixava que ficássemos na rua. Procurava a neguinha (referindo-se a mim), mas não achava. Ela se escondia de mim".

Quando entrei para a escola, aos seis anos de idade, fiz uma prova para não precisar frequentar a classe de alfabetização, já que sabia ler. Lembro-me como se fosse hoje, o quanto chorei naquele momento. Não entendia o que se passava. Fui uma das últimas a terminar a prova. O rosto da minha avó, inconsolável do lado de fora da sala e com olhos arregalados que me diziam "termina logo essa prova!", ficou marcado na minha memória. O resultado da fatídica prova veio com sabor (para minha avó) de “torta de morangos frescos e chantilly” (rs...), pois foi uma felicidade só ao saber que a sua netinha chorona iria direto para a (antiga) 2ª série, o que hoje equivaleria ao 3º ano de escolaridade. Mas o quanto de peso terá isso estampado em mim? Conseguiria eu sustentar a fama atribuída? Alguém teria se perguntado algum dia? Não a mim.

Eu, com seis anos de idade, compartilhei experiências (claro que é apenas força de expressão, pois quase não se podia falar em sala de aula) com colegas de 8 e 9 anos. E isso me trouxe mais problemas do que os que já possuía na época. A timidez excessiva tomou conta do meu ser por completo. Sequer pedia para ir ao banheiro. E já se pode imaginar o que ocorria lá na cadeirinha de trás, afastada o máximo possível dos colegas...

A hora do recreio era um tormento. Tinha que me levantar da cadeira, quase sempre toda molhada, e das escadas que davam acesso ao pátio, ficar vendo aquelas crianças todas correndo de um lado para o outro. Achava aquilo “um saco”. Não via graça e queria mesmo estar na sala escrevendo, escrevendo e escrevendo... Louca eu? Claro que sim (rs...)! Fui logo encaminhada para um Serviço de Psicologia.

Para as pessoas da minha família foi ótimo esse encaminhamento, pois não compreendiam, principalmente minha avó, porque era tão calada. Mas lembro, quando mais velha, do quanto ela ressaltava que eu “falava explicadinho” e que aos 2 anos de idade, já sabia falar qualquer coisa, inclusive frases completas. Por que essa menina é tão quieta se já sabe falar de tudo? O diagnóstico veio logo: "a idade mental dela é muito maior que a real, ela pensa quase como um adulto". E minha avó usava isso como resposta sempre que alguém fazia algum comentário sobre a minha intensa e incômoda quietude.

Bem me recordo das sessões de terapia. Uma sala repleta de brinquedos, coisas que não tinha em casa. Não me lembro de qualquer conversa ou coisa parecida, mas sei que fiquei bem uns dois anos freqüentando aquele espaço. Acredito que me ajudou muito, pois já consigo pedir licença para ir ao banheiro, ou simplesmente, me levanto e vou... Rs!

Férias. Ah, minhas férias! Como anseio por elas hoje! Mas na época em que entrei na escola não era bem assim. Logo que soube o que significava o termo e fiquei sabendo que entraria no tal período de férias, entrei (literalmente) em desespero. Sim, na minha memória repousa a cena da minha avó me consolando do pranto e me dizendo que logo, logo iria passar e eu voltaria a estudar.

Hoje a timidez persiste, mas atrapalha menos que antes. E ainda gosto de ficar quietinha, lendo ou escrevendo. Sempre estou lendo alguma coisa. O lado positivo disso é que estou em constante atualização, mas tem o lado negativo, que são as horas que deixo de realizar atividades diferentes, como sair para passear e conhecer pessoas, por exemplo.

Como mexe comigo revolver esses acontecimentos. Muitos vindos quase instantaneamente na lembrança, outros um tanto ocultos, mas de alguma forma, sei que estão lá. Nem tudo foi sofrimento. Depois de um tempo (um bom tempo!) fui fazendo amizades, conseguindo falar e até responder questionamentos dos professores, o que me rendia alguns elogios por parte deles e olhares de “horror e asco” por parte dos colegas.

Aos 8 anos, decidi que iria ser professora. Exatamente desta forma: decidi! E de lá pra cá não pensei em outra formação que não fosse ligada à educação. É bem provável que isto se deva aos pedidos de alguns vizinhos nossos, adultos analfabetos, para que eu os “alfabetizasse”. É muito estranho falar sobre isso, parece imaginação fértil de uma criança (hoje, da adulta) que, por ser muito quieta, diziam-se sofrer de “distúrbios de comportamento”. Mas a verdade é que tinha mesmo uma turminha.

A turma tinha uns cinco ou seis alunos. Lembro o nome de alguns deles nesse momento e recordo dos seus rostinhos castigados pela exclusão social pela via do fracasso escolar ou da não-escolarização. Umas delas, a mais velha, de aproximadamente 50 anos, atendia pelo nome de “Zinha”, Dona Zinha. Lembro que mostrava as letras a Dona Zinha, e também a Deisinha, sua filha, e ao Zé Pereira, e pedia que exaustivamente eles repetissem o nome das mesmas. Isto porque ela possuía uma enorme dificuldade para memorização. E a cobrança da “Tabuada”? Sabia de cor, de frente pra trás e de trás pra frente e, portanto, queria que “meus alunos” a tivessem na ponta de suas línguas. Exigia que eles levassem para as aulas o livrinho (de tabuadas) e estudávamos através dele. Nossa, que horror! Era bastante autoritária também, algo parecido com o que vivenciava na escola. Recordo-me das broncas pedindo silêncio, dos “Fica queto!” quando o assunto era o preço e a fila do feijão. Era muito estimulada pela minha avó para realizar tal atividade.

Percebo hoje que, uma criança aprender a ler sozinha, aos 4 anos de idade, na visão da minha avó, pessoa com pouquíssimo estudo, apesar de leitora eficaz,  era algo bastante difícil de entender. E ainda mais se considerarmos também a época em que o fato se deu.

De tudo, sei que amo estudar, sou alfabetizadora por opção, educadora, afeta à transformação positiva do descalabro social excludente e estou sempre buscando algum conhecimento para ancorar minha prática.


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